sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Sugestão


Pemita que eu peça mais. Permita que eu peque em paz e seque o choro teu. Exija a presença minha, meu sussurro em teu ouvido. Quebre o vidro da distância e deixe a bossa do embaço. Faço questão de te querer, de poder muito mais. De roubar a tua inércia injetando sentimentos. É hora de arrombamentos: máscara e muralha. Vou tirar a tua tristeza e virar a mesa. Custe o que custar.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Tradução


Foi em Barcelona que ela descobriu que o amor não tem roteiro: é cheio de armadilhas apesar dos mil clichês. Embarcou numa história a três e até curtiu, mas sentiu na pele o peso de ser ímpar sobrando num par. Tentou o formalismo: trocou o caso anti-convencional por um casamento em igreja e papel. Notou que igrejas escondem pecados e que papéis esfarelam. Pensou em fazer gênero, segurando por muito tempo o que tanto queria soltar. Perdeu muito, muito antes de ganhar. E numa cafeteria de esquina dispensou o açúcar no café e na alma: abandonou a calma e a doçura. Voltou pra casa com a mala cheia: fotos tantas e fatos tontos. Em terras catalãs, constatou que ainda não sabe o que busca, mas já sabe (e MUITO bem) o que não quer jamais... perder as possibilidades pelo medo do arriscar.

Inspirado no (ótimo) filme VICKY CRISTINA BARCELONA, do Wood Allen. Em cartaz nos cinemas. Recomendo.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Verde Menos, Verde Mais


Ela começou a namorar um cego. Desde então, aprendeu a lidar com as reações de surpresa alheias. Muita gente não resistia e indagava como era manter o relacionamento com alguém que não tem olhos. De início, tentava explicar que não havia tanta diferença... mas o assunto sempre terminava com um certo ar de pena. Sabe-se lá se a pobre (e burra) comoção sentida por tantos era por ele não enxergar ou pelo árduo "fardo" dela. Não importa: hoje, sempre que perguntam esse tipo de coisa, ela limita-se a sorrir, lembrando como é incrível o diálogo das mãos dele em seu corpo, dos pequenos lábios dele nos grandes seus. De como ele valoriza cada som, cada tom que dela sai. E, muda, segue a vida com seu cego amor, um amor tão colorido que não desbota à pequenez cinzenta de quem não sabe ser feliz.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Imagem... e ação


Erotizo a fábula e proponho mais pimenta nesse sonho: esqueça o que conhece até então. Atenda a minha prece, vem voar. Venha cá, se apresse... o tempo é curto para tanta fantasia. Troque o dia pela noite e solte a imaginação. Se entregue. Eu quero ação e subtexto. Pretexto e entrelinha. Brinco de dubiedade com "essa-fadinha". Pode ser sereia, pode areia ser. Tudo isso e muito mais. Hoje não tem faz de conta: hoje a gente realmente faz.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Monstros existem


Shhhhhhh... esse é o nosso segredinho. Não conte a ninguém, eles não vão acreditar. Eu posso fazer algumas coisas com você, veja bem. Cuspo fogo da boca, tenho pele asquerosa e a minha prosa é envolvente. Minha língua é quente e o meu jeito é cínico. Tenho cinco chantangens semanais escondidas atrás das asas, não adianta fugir. Eu sou o maior e o pior dos seus segredos. -- E levou muitos anos para que a menina descobrisse que não era "dragão" o nome daquele terrível ser. Pedófilo: o termo certo que ela cruelmente viria a aprender. Queria que fosse de fadas, mas é um conto de fatos.

[ Homenagem silenciosa à coragem de uma amiga que passou por isso ]

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ao vento

Invento. Faço que sim, finjo não ver. Ignoro o porquê dessa saudade. Guardo a ansiedade no bolso, ouso encenar desdém. E, falando sério, não convém a nós dois negar o óbvio, ceifar o nexo, podar o sexo (que você deseja e eu preciso). Rascunho meias-verdades gritando uma vida inteira. Que o vento leve meu recado ao teu sorriso.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Cardápio


Olha que eu sou indigesto: eu tenho mil sabores, cada parte é uma arte diferente. Eu sou amargo, salgado, azedo, adstringente. Doces, só os olhos, nem vale a pena o resto. Vá por mim, eu não presto.